... É gente activa, é família unida, por uma aldeia, por uma paixão, e para toda a vida . Unida por um passado que se vive presente, e por uma tradição que tanto encanta e se sente. Neste blog se honra a história da família Valente, e de todos os que amam a sua terra-mãe: Santana de Cambas. Aqui ficam para sempre as imagens e estórias tornadas História, para que sejam revisitadas em sorrisos e lágrimas, de amor e de saudade.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Do outro mundo (parte 3)




Caminhámos mais uns quantos metros junto ao muro do cemitério e subimos depois por um caminho algo apertado, sito entre o muro e a rocha escavada, deixando para trás a velha calçada e seguindo descontraídos por esse trilho estreito e feito de terra e que logo depois se alarga e nos leva até ao cimo do monte, lá depois de um grande aglomerado de árvores, que em miúdo eu chamava de floresta. Cimo do monte. Era esse afinal o nosso destino. 
O cemitério ficava agora atrás de nós, imponente com a sua quietude e calma imutáveis. À medida que íamos subindo podíamos apreciar de novo a aldeia ao longe, agora à nossa direita, e tive a sensação que nunca me pareceu tão bela como então. Vista dali, àquela hora, Santana de Cambas era um autêntico presépio, com suas luzes difusas espalhadas por toda a aldeia, as suas casas rasas singelas e todas arrumadas umas nas outras subindo ordenadas até à igreja, lá bem no alto, iluminada no topo com luzes de várias cores. 
Seguíamos então lado a lado, agora com um passo mais demorado, continuando distraídos com as nossas conversas de sempre. A lua estava agora diante de nós, misturada entre milhões de estrelas e prestes a perder-se por entre as densas árvores lá no alto. Foi nesse preciso instante que ouvimos… 
- CRRRRRRR… 
Um ruído estridente e metálico atrás de nós, foi tão intenso que demos um salto para o ar despertando do torpor e começámos a correr desalmadamente pelas nossas vidas, só parando bem lá mais à frente, por detrás de um largo sobreiro que usámos como única protecção e abrigo. Estávamos ofegantes e tão confusos e nervosos que olhámos uns para os outros de olhos bem abertos e comecámos a rir, ainda com as mãos nos joelhos e tentando recuperar o fôlego. – Mas que raio foi aquilo?… 
Não compreendendo o que se tinha passado, espreitámos a medo agora lá para baixo, de onde o barulho surgiu. Aquilo que tinhamos ouvido, e que durou uns quantos segundos, foi como se algo enorme e metálico tivesse caído vertiginosamente do céu, lá do outro lado do cemitério, e se aproximasse logo em seguida de nós, aos solavancos, em fúria, trazendo tudo atrás de si. Contudo observámos atentos em redor e nada vimos de suspeito. Não se via vivalma. Tudo à volta do cemitério continuava calmo e silencioso, como se nada se tivesse passado. Nem ruido, nem fumo, nem movimento. Da aldeia ouviam-se agora alguns cães uivando à lua, mas a paz continuava bem presente naquele lugar e em tudo à nossa volta. 
Só dentro de nós a paz não regressou mais. Ao acalmarmos um pouco reparamos que estamos afinal mesmo ao lado da horta do tio, onde se distinguem na noite escura algumas árvores de fruto e lá ao fundo uma pequena casa de arrumos feita em madeira. Pensei na altura que esse seria um bom refúgio para nos abrigarmos. Poderíamos lá esperar escondidos por uns instantes e ver o que se passa. Era um bom plano, talvez. Mas a nedo acabámos por decidir que teríamos de continuar, e de seguir em frente, pois voltar pelo mesmo caminho e passar junto ao cemitério seria arriscado e estava agora completamente fora de hipótese. Não, vamos até lá acima e depois podemos descer o monte pelo outro lado e seguir pelo campo, pela direita, em direcção à aldeia. 
Seguimos então meio calados e meio á pressa pelo monte acima. Lembro-me que ouvia as batidas do meu coração bem fortes, como se o tivesse mesmo junto ao ouvido, e senti que ouvia os outros três corações, batendo em uníssono num ritmo perturbador. Seguíamos bem junto uns dos outros, mudos, o nosso pensamento ocupado, tentando raciocinar em condições e encontrar em nós alguma explicação para o sucedido. Mas não encontrávamos resposta. Era em vão. 
Rapidamente chegamos junto às árvores. Frondosos eucaliptos, altos e muito juntos entre si. O chão sob eles estava repleto de folhas secas que impediam o silêncio dos nossos passos. Decidimos abrandar um pouco, não só para evitar o barulho que causava o nosso andar, como também para recuperar o fôlego e respirar um pouco de alívio. Afinal já tínhamos andado bastante e sentimos que estávamos já longe do local onde “aquilo” se passou. Abrandámos o passo, mas não parámos de andar. As árvores afunilavam agora a nossa marcha e cedo fomos obrigados a seguir em fila, uns atrás dos outros. A lua estava agora mais intensa, brilhante á nossa frente, surgindo nos raros espaços deixados pelo arvoredo. Era como uma película, um filme daqueles em que as várias sequências são intercaladas por múltiplos cortes a fundo preto. 
Íamos tão juntos uns dos outros que de vez em quando pisávamos os calcanhares de quem ía à nossa frente, o que dava motivo suficiente para retomar nosso riso e boa disposição. Estávamos a viver algo irreal, inexplicável. A par disso estávamos cansados e sobretudo incrédulos e apavorados. No entanto era indisfarçável o sentimento incontido de aventura e de máxima adrenalina. Emoções fortes. Aos poucos libertámo-nos do medo e do silêncio que nos prendia e retomámos alguma calma, trocando a espaços alguns risos e palavras. Estávamos agora completamente envoltos pelas árvores e pela escuridão e continuávamos caminhando em fila, rumo ao cimo do monte. Já não falta muito, pensei. De súbito, um enorme clarão surgiu do céu e incidiu sobre nós. Só tive tempo de ver um foco de luz branca sobre as árvores, por cima de nós. E logo se apagou. Tudo se apagou. No segundo seguinte abri os olhos. Olhei então à minha volta e não soube reconhecer onde estava. Só sei que estava só, desprotegido, cheio de medo, no meio do nada. 

(continua…)


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Do outro mundo (parte 2)


Com nosso andar apressado eis que chegamos junto do cemitério, que nos surge em realce, suspenso, quase como uma aparição. Sempre esteve ali, é certo, mas as suas paredes exteriores reflectem o sol que sobre elas incidiu durante todo o dia, conferindo-lhe agora uma luz suave e ténue, como se uma aura branca e cintilante o envolvesse ainda mais em mistério. A sua porta, gradeada no topo e de ferro e negra como fumo, contrasta agora nitidamente com as altas paredes brancas que a seu lado a sustém, e através dela, sobre as campas e gavetões, distingue-se um ligeiro fogo fátuo, como se de um pó púrpura se tratasse, pairando em desalinho sobre a imensa mansidão do lugar. 
Duvido se sozinho conseguiria ali estar naquele momento. Duvido, embora estivesse habituado a lidar com a morte de uma forma natural. Lembro-me sempre de um tio meu que todas as manhãs por lá passa antes de ir para a horta e vai dizer bom dia aos meus avós e restante família. E com eles fala do tempo, dos filhos quando vêm, do almoço que vai fazer com as couves da horta, enfim… fala por longos e animados minutos como se seus parentes estivessem ainda vivos e ali à sua frente. Habituei-me a ver isso desde miúdo e assim o faço hoje e sempre que os visito. Falo com eles. Lembro-me também de um rapaz de um monte ali perto que, órfão de pai e mãe, vinha todas as noites descendo com sua motorizada até ao cemitério, saltava o muro lá para dentro e passava grande parte do serão com seus pais falecidos. Porque o amor tudo vence. Ou até a história recente de uma velhota que lá ficou fechada por uma noite inteira e surpreendeu um caçador que por lá passou de madrugada e ouviu uma voz lá de dentro a pedir ajuda e com o susto que apanhou já não foi caçar nesse dia. E a velhota ainda é viva. 
Mas claro que a noite tudo transforma e as sombras que ela traz e as histórias que ouvimos ou que vemos no ecrã conferem ao cemitério e às coisas do oculto toda uma envolvência e misticismo que transforma facilmente a minha naturalidade em medo, pânico, ou porque não dizê-lo, terror. 
Mas não estava sozinho. Felizmente não estava só, e pude assim contemplar aquela rara beleza que também existe nos lugares e nas coisas que mais receamos. Ali ficámos por largos momentos junto ao portão, apreciando de relance o interior do cemitério, enquanto puxávamos de mais um cigarro amarrotado do bolso das calças e continuavamos a nossa conversa, que tinha mudado de tema e era agora sobre o hotel de luxo que um dia gostaríamos de construir em Santana, para a família toda viver, com 20 andares e piscina olímpica com vista para o grémio. – Epá, isso é que era! 
Facilmente nos esquecemos assim do barulho perturbador que ouvimos minutos antes, enquanto descíamos para o cemitério. A conversa retomou calmamente, os cigarros apagaram-se no chão e seguimos então deixando o cemitério à nossa esquerda em direcção ao imprevisto. 

(continua…)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Do outro mundo




Era uma noite de lua meio cheia e meio apagada por um céu vivo de estrelas que com sua licença lhe tiravam o brilho. Era uma noite já meia noite e dali se observava o meio da aldeia ao longe, com a torre da igreja ainda iluminada desde as festas e mais duas ou três casas ainda despertas de gente. Pouco mais se distinguia do casario além das luzes difusas alumiando em largos espaços as poucas ruas de Santana de Cambas, desde o poço no poente até ao cemitério a nascente, lá bem no fundo de tudo, para lá da aldeia. Soava bem perto o canto vibrante dos grilos e das cigarras nos campos destapados, contrastando com um suave burburinho de gente ainda no adro a essa hora, e que ecoava ondulante e disperso por todo o vale. Para nós era silêncio e calma e contemplação. Era a beleza das coisas simples. Era uma noite de mais um dia quente de Verão. E seria no fim um dia que guardaríamos na memória para todo o sempre.
Éramos miúdos armados em homens, nos seus verdes anos de vida. Éramos quatro miúdos com muito tempo nas mãos e mais imaginação ainda, e lembrámo-nos nesse dia de ir passear pela noite quente, o que não era, aliás, nenhuma ideia primeira. Éramos miúdos mas já muito rodados nessas coisas de caminhar pela noite. Era normal nos dias de festa das povoações em redor fazermo-nos a pé pelos caminhos, cantando e assobiando pelo alto de Santana, seguindo pela margem da estrada para Moreanes ou até pelo campo, quando íamos para as festas dos Bens ou dos Salgueiros, rasgando a roupa pelos arames farpados e chegando aos bailes sempre com ar de maratonistas. Mas íamos a todas. E a pé.
Voltando a essa noite e ao destino do nosso passeio: a ideia dessa vez nem me lembro ao certo de quem ou de onde partiu, mas veio puxada numa nossa conversa de miúdos feitos homens, ali no poço Carvalho, onde passávamos grande parte do tempo das nossas noites na aldeia, e onde estávamos sentados, pouco tempo antes de tudo o que se passou depois. O relógio da igreja marcou a hora com suas doze badaladas e marcou também o compasso ritmado dos nossos corações e o início da nossa caminhada. Tinhamos deixado o poço atrás de nós e a escola mal iluminada estava agora à nossa esquerda, quieta e muda, como quase toda a aldeia. Virámos depois à direita e seguimos junto ao muro que ainda era de pedra, em direcção à travessa do Moleiro, que ainda nem tinha esse nome. Estávamos estranhamente calados, não sei se por falta de conversa ou se por respeito ao silêncio e escuridão que se fazia sentir pelo caminho e nos contagiava a mudez. Uns cães vadios, cheirando-lhes a movimento, vieram ao nosso encontro e acompanharam-nos por dois ou três passos, voltando depois a deitar-se aborrecidos no meio da rua onde estavam. Ainda o silêncio. Chegando à rua grande continuámos pela direita, deixando logo depois o casario e descendo em passo largo até ao cemitério. Ao longe algumas luzes de Espanha picotavam o horizonte entre a bruma e o céu luminoso. Era mais céu do que terra, mais estrelas que candeias. Pedaços de água brilhavam entre os cerros despidos por onde passa a ribeira, e morcegos bailavam em transe sobre as luzes do caminho.
Foi então que, aqui e ali, um ligeiro resfolhar se foi ouvindo pela noite e nos fez sentir que não estávamos ali sozinhos. Sentimos no momento que alguém, ou algo, estava a acompanhar-nos no nosso passeio. Ouviu-se então um ruído ainda mais intenso e perturbador, vindo lá do alto, à nossa esquerda, como se alguma coisa se dirigisse em grande velocidade na nossa direcção. Instantes depois, de novo o silêncio. Absoluto. Nada. Estarrecemos de imediato e, meio assustados, trocámos entre nós um olhar incrédulo. Quem andará aí? Lembro-me que nem sequer comentámos mais nada entre nós. Assim como parámos, logo retomámos nosso andar apressado e também nossa conversa sobre as miúdas giras que estavam no baile do outro dia e também sobre aquela música do Fabião que não nos sai da cabeça. Foi como se não fosse nada. A verdade é que estávamos juntos, unidos por uma verdadeira irmandade de já muitos anos, e isso bastava para nos sentirmos contagiados com a coragem invisível de cada um de nós. Além disso, pensámos para nós mesmos, estamos em Santana, que raios poderá acontecer aqui? Nada. Deste mundo, nada. E estávamos tão certos disso que não demos nenhuma importância aos primeiros sinais do que nos iria acontecer. Acabámos afinal por ter toda a razão: o que nos aconteceu depois não foi mesmo nada deste mundo.

(continua...)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Na escola




Hoje em dia tudo é bem mais complicado: a indisciplina, a violência e o insucesso escolar são contantes preocupações para um pai. Encontrar uma escola livre desses males é por vezes uma tarefa bem complicada e, claro, nada disso depois nos é garantido. Claro que não. Os manuais, sebentas e lápis de carvão deram hoje lugar às dezenas de livros que se têm de comprar, com centenas de euros, no início de cada ano (e será que as crianças dão mesmo aquilo tudo nas aulas?), o que nos obriga a uma ginástica orçamental cada vez mais exigente. Com os livros vêm ainda todos os outros gastos com o restante material escolar: os lápis e canetas e lapiseiras e borrachas de mil cores, numas mochilas coloridas com o boneco do momento, mais réguas e esquadros de todos os tamanhos e feitios, cadernos iguais às mochilas, mais agora o Magalhães e todos os seus derivados, e tudo novinho de ano para ano (e sei que me estou a esquecer de muita, mas muita coisa mesmo). Afinal a escola hoje é Conhecimento e Saber, mas também é um grande negócio para muita gente. Menos para os pais, claro.
Veio agora a gripe A, que apesar de tanto alarido, felizmente não é tão grave quanto parece. Ou pelo menos preferimos pensar assim, para passarmos os dias mais tranquilos e não pensar muito nisso e nos outros riscos que as nossas crianças têm nas escolas. Mas que os há, há.
E também os havia antigamente. Mas noutros tempos, a indisciplina era tratada com a palmatória ou castigo menos severo no canto da sala. Um chapéu de orelhas de burro, umas reguadas ou uns puxões de orelhas. Hoje isso é proibido, pois ou é violência ou discriminação. E até que havia violência entre crianças nos recreios, durante o intervalo, mas não era nada destas coisas de wrestlings e kung fu e armas brancas. Nem sequer se podia chamar de violência. No meu tempo, alguns anos depois, era assim. Era mesmo todos à molhada, aos empurrões e à estalada, e no final tudo estava bem de novo, à excepção de uns rasgões nas roupas e no corpo. Bem, e ao chegar a casa é que eram elas… Mas nada de muito grave acontecia.
Insucesso escolar também havia, claro, e muito mais do que hoje. Havia o trabalho no campo ou em casa, haviam as dificuldades que haviam e além do mais a escola não era assim tão importante como é nos dias de hoje. Pelo menos pensava-se assim. Era mais necessário ter algo para comer do que um livro para estudar.
Bem, muita coisa mudou, mas a verdade é que quando penso e imagino uma escola primária, vem-me sempre à lembrança a escola de Santana de Cambas. Porque é linda. Mesmo hoje, algo diferente, com uma vedação a toda a volta, mas remodelada e com melhores condições para as crianças (porque felizmente as há, ao contrário de há uns anos), conserva em si os seus traços de antigamente e traz ainda à lembrança os nosso tempos de criança, e os tempos idos de nossos pais (Olá mãe!). Tudo se conserva ali, como nesta foto que aqui deixamos hoje, no nosso baú de recordações.


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Futebol




Esta manhã, tal como em quase todas as manhãs, reparei que as capas dos jornais enchem-se de um tema que curiosamente ainda não tínhamos falado aqui: o futebol.
O futebol faz parte integrante da nossa sociedade, e é um dos grandes impulsionadores de alegrias, de esperanças, de frustrações e desilusões também, que inconscientemente se trazem para fora das quatro linhas e moldam o nosso humor e temperamento para com os outros no nosso dia a dia. Quem não teve já de aturar um chefe zangado e mal disposto na 2ª feira de manhã, por o seu grande Benfica ter perdido? Ou o colega do lado, apático e triste, por mais um empate do seu Sporting? Ou até mesmo o senhor do café onde costumamos ir, que nos trata mal porque o seu Porto está a passar por uma crise? O que para uns é uma doença, para outros é uma cura, mas a verdade é que só para muito poucos o futebol se torna indiferente.
Ora este pensamento deixou-nos algo curiosos acerca da cor clubística que predomina na nossa família. Será que a maioria anda feliz e contente porque o glorioso Benfica está lá no topo? Ou andará triste, mas com a esperança sempre acesa e a pensar que o seu Sporting ainda lá chega ao topo? Ou andará com o orgulho ferido, pois o seu tetra campeão afinal é uma treta?
Digam de sua justiça, respondendo à sondagem que se encontra disponível aqui no nosso blog.


Cante Alentejano

Para todos os amantes do cante alentejano, e até mesmo para amigos e simpatizantes, aqui fica este site para ouvir, cantar, e recordar por mais:

http://cantaresalentejanos.com.sapo.pt/


Votos de uma boa semana,
A Geração Valente