... É gente activa, é família unida, por uma aldeia, por uma paixão, e para toda a vida . Unida por um passado que se vive presente, e por uma tradição que tanto encanta e se sente. Neste blog se honra a história da família Valente, e de todos os que amam a sua terra-mãe: Santana de Cambas. Aqui ficam para sempre as imagens e estórias tornadas História, para que sejam revisitadas em sorrisos e lágrimas, de amor e de saudade.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Do outro mundo (parte 2)


Com nosso andar apressado eis que chegamos junto do cemitério, que nos surge em realce, suspenso, quase como uma aparição. Sempre esteve ali, é certo, mas as suas paredes exteriores reflectem o sol que sobre elas incidiu durante todo o dia, conferindo-lhe agora uma luz suave e ténue, como se uma aura branca e cintilante o envolvesse ainda mais em mistério. A sua porta, gradeada no topo e de ferro e negra como fumo, contrasta agora nitidamente com as altas paredes brancas que a seu lado a sustém, e através dela, sobre as campas e gavetões, distingue-se um ligeiro fogo fátuo, como se de um pó púrpura se tratasse, pairando em desalinho sobre a imensa mansidão do lugar. 
Duvido se sozinho conseguiria ali estar naquele momento. Duvido, embora estivesse habituado a lidar com a morte de uma forma natural. Lembro-me sempre de um tio meu que todas as manhãs por lá passa antes de ir para a horta e vai dizer bom dia aos meus avós e restante família. E com eles fala do tempo, dos filhos quando vêm, do almoço que vai fazer com as couves da horta, enfim… fala por longos e animados minutos como se seus parentes estivessem ainda vivos e ali à sua frente. Habituei-me a ver isso desde miúdo e assim o faço hoje e sempre que os visito. Falo com eles. Lembro-me também de um rapaz de um monte ali perto que, órfão de pai e mãe, vinha todas as noites descendo com sua motorizada até ao cemitério, saltava o muro lá para dentro e passava grande parte do serão com seus pais falecidos. Porque o amor tudo vence. Ou até a história recente de uma velhota que lá ficou fechada por uma noite inteira e surpreendeu um caçador que por lá passou de madrugada e ouviu uma voz lá de dentro a pedir ajuda e com o susto que apanhou já não foi caçar nesse dia. E a velhota ainda é viva. 
Mas claro que a noite tudo transforma e as sombras que ela traz e as histórias que ouvimos ou que vemos no ecrã conferem ao cemitério e às coisas do oculto toda uma envolvência e misticismo que transforma facilmente a minha naturalidade em medo, pânico, ou porque não dizê-lo, terror. 
Mas não estava sozinho. Felizmente não estava só, e pude assim contemplar aquela rara beleza que também existe nos lugares e nas coisas que mais receamos. Ali ficámos por largos momentos junto ao portão, apreciando de relance o interior do cemitério, enquanto puxávamos de mais um cigarro amarrotado do bolso das calças e continuavamos a nossa conversa, que tinha mudado de tema e era agora sobre o hotel de luxo que um dia gostaríamos de construir em Santana, para a família toda viver, com 20 andares e piscina olímpica com vista para o grémio. – Epá, isso é que era! 
Facilmente nos esquecemos assim do barulho perturbador que ouvimos minutos antes, enquanto descíamos para o cemitério. A conversa retomou calmamente, os cigarros apagaram-se no chão e seguimos então deixando o cemitério à nossa esquerda em direcção ao imprevisto. 

(continua…)

2 comentários:

delfina disse...

porra pedro mais um dia sem saber ke passou ve se terminas a historia ,nao tenho pachorra ,mas uma pergunta ,viste alguma vez algum morto a passear?

Geração Valente disse...

Olá Fina!
Faltam só mais 2 episódios... ou 3, não sabemos ainda.
Fica o suspense... Só posso adiantar que não vimos nenhum morto "vivo" :)
Beijinhos,
Geração Valente